sábado, 3 de janeiro de 2009

A trégua Natalina de 1914

"Guerra total" é um conceito de um conflito de alcance ilimitado, no qual as partes beligerantes se engajam numa mobilização total de todos os recursos à sua disposição, humanos, industriais, agrícolas, militares, naturais e tecnológicos, de maneira a destruir a capacidade de resistência de seu inimigo.

A prática da guerra total existe há muito tempo. Na guerra total existe uma diferenciação menor entre combatentes e não-combatentes, onde tudo e todos são alvos em potencial. Um exemplo perfeito de "Guerra Total" é a Primeira Guerra Mundial, onde cidades eram bombardeadas, ferrovias, fazendas, etc. Ao mesmo tempo, todo o esforço dos envolvidos era voltado a guerra.

Em meio de uma "Guerra Total", seria possível que ainda houvesse algum tipo de respeito e sensibilidade por parte dos envolvidos? Não vindo de cima, é claro, mas por parte dos combatentes, humanos, sim. Um soldado não luta por motivos próprios, ele simplesmente obedece ordens coordenadas por um interesse superior.

Em 25 de Dezembro de 1914, em meio a Primeira Guerra, alguns militares conseguiram uma trégua nos combates para que se comemorasse o Natal. Com o tiroteio interrompido, combatentes de ambos os lados passaram a cantar canções natalinas. Levado pelo momento, um dos soldados alemães escreveu em uma placa a saudação "Holly Christmas", e a exibiu para os soldados ingleses, que comovidos, retribuíram de forma igual.

A partir daí criou-se um clima desagradável para os soldados continuarem qualquer tipo de agressão uns aos outros, afinal, eles estavam ferindo e matando pessoas que em qualquer outra situação, que não a guerra, poderiam estar convivendo pacificamente em seu dia-a-dia.

Diante disto, um dos alemães em gesto de paz saiu desarmado de sua base, e com uma garrafa de vinho fez uma simples (porém, gentil), homenagem aos ingleses, oferecendo-a. Comovidos, ingleses passaram a abandonar suas posições e então iniciou-se uma grande e marcante confraternização entre ambas as tropas que passaram a trocar pequenos presentes, abraços, e até cantarem juntas canções natalinas.

Quando esta confraternização chegou aos ouvidos dos comandantes, eles imediatamente ordenaram que toda aquela "palhaçada" fosse interrompida e os tiros voltassem a ser disparados. O exército, obediente como é, voltou a disparar rajadas de tiros, mas não mais uns aos outros, e sim... para qualquer lado. Não havia como os exércitos continuarem a ofensiva, foi criado naquele dia de Natal uma ligação entre as tropas que não poderia ser quebrada por qualquer ordem que fosse. Resultado? Todos os soldados envolvidos no caso foram debandados e novas tropas assumiram as posições, e só então sangue foi derramado novamente.

Tudo isso em respeito ao Natal? Também, mas era algo mais do que isso, era em respeito a suas próprias vidas. O entendimento de que tudo aquilo que estava ocorrendo estava longe de ser culpa deles. Eles lutavam por alguém, mas quem lutaria por eles?

Desde já grato,

Corrêa